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terça-feira, 1 de maio de 2012

A dor

Admiro, sobretudo no Miguel Esteves Cardoso, a maneira desassombrada como revela os seus sentimentos, expõe as suas chagas, mostra as suas íntima feridas. O cidadão mediano, retrair-se-ia. Falar de doenças??_ Coisa de "gaja". Falar de cancro???... Que mau gosto!!! Não, gaita, não!!!! Para já não existe cancro: existem cancros e não há 2 iguais. Numa família povoada de médicos, ouvia dizer ao meu avô paterno que havia de ser um de nós a descobrir a cura para esta temível doença.;) Não, nem a minha prima Isabel Lemaitre que fez investigação na Bélgica se aventurou por aí. Hoje sabe-se que, um mínimo "engano" na replicação de um gene ( e nós temos milhares de genes), pode provocar esta mortal doença. No cancro, não é a morte que me chateia. E o processo. São as esperanças. São as desilusões. É ficar sem cabelo. É a quimioterapia, radioterapia, o diabo a 7. O diabo à solta nas nossas veias. No cancro, não é a morte que me chateia: é a pena. Senti-a quando tive um tumor cerebral_ que por acaso não era maligno,_ . As pessoas que me abordavam, t
ipo: "coitada, tão nova, com 2 filhas para criar e com um tumor na cabeça!"_ DETESTEI que tivessem pena de mim. Não sei explicar porquê, mas odiei. Não fiz "quimio" nem "radio", Graças a Deus mas passei por uma cirurgia complicadíssima. E sei... Sei que apesar de não ser "dos maus", o estupor pode voltar. Mas ...Não quero saber. Enquanto não souber estou descansada.... Porque... Quando se sabe.... Quando se sabe, pelo menos comigo, se um dia vier a saber, só quero que me deixem em paz. Mas depois vou ter as pressões dos médicos, o olhar dos que me amam a dizer: " luta mais um pouco! Fica connosco mais um ano, mais 2 anos, mais 3 meses!!!" Penso que é por isso que as pessoas que sabem o desfecho, se sujeitam a tratamentos humilhantes e horríveis: para dar aqueles que amam um pouco mais de tempo. Uns dias, uns meses quiçá uns anos de companhia... E...há sempre a esperança do milagre... Então aquele jogador de futebol não esteve 20 minutos com o coração parado e não recuperou???... Ora!!!... Enfim, em oncologia não costuma haver milagres. Infelizmente. Um dia, após a morte da minha querida mãe, um oncologista do IPO disse-me que " o cancro era o preço da evolução". A doença evolui, isso é certo. O nosso conhecimento sobre ela, também. Como manipular os genes avariados, nas células afectadas é que não se consegue descobrir. Bem, depois de tantos familiares e amigos que me morreram de cancro , abençoado enfarte, AVC ou atropelamento!!! (Desculpem a crueza mas estou muito triste). Isabel.