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sexta-feira, 25 de março de 2011

Hope There's Someone



Morreste-me

Morreste-me!!!

Miguel, sabes, tu que escrevias tão bem, ajuda-me agora que eu não sei o que te dizer e tenho tanto dentro de mim a fervilhar!!….

Saudade…Não, não é saudade, saudades tuas sempre as tive pois raramente saías do teu monte alentejano e aparecias por estes lados…..

Lembras-te???

Uma vez caiu um bebé coruja de um pinheiro que lá tinhas, puseste-a numa caixa e vieste à minha casa (dos meus pais) e ofereceste-ma!!:)))) A coruja era tão gira com aqueles olhos enormíssimos, amarelos como holofotes!!!.... Criámo-la durante uns tempos e depois soltámo-la. Que será feito dela??? Foi há quanto tempo?? 32 anos???

Lembras-te Miguel, quando me ias cavalheirescamente buscar a casa para ir ao cinema e à discoteca?? E na discoteca dançavas… Ui…. Só me fazias lembrar o MIck Jagger!!!

Eras lindo, Miguel: alto, loiro, uns olhos azuis do tamanho deste mundo e do outro!!!!

Fomos colegas de liceu durante uns anos e a vida separou-nos quando eu fui para a faculdade… Mentira… A vida foi-nos separando aos poucos quando tu enveredaste por caminhos que não eram os meus…. Nunca te condenei e tu sempre me respeitaste. Quando saíamos juntos e ias fumar cigarros “diferentes”, nunca o fazias à minha frente.

Um dia foste visitar-me a Évora, fiquei tão feliz!!!.... E tão chateada quando a meio da discoteca desapareceste para ir fazer aquelas coisas que não fazias comigo ou na minha presença….

Jamais esquecerei um dia em que me convidaste para ir a tua casa e me leste as tuas poesias que me deixaram… absolutamente siderada!!! Escrevias extraordinariamente bem!! Desperdiçaste tanto talento…. Tanto talento Miguel!!!

E é tão triste saber que a culpa não foi tua!!!!!!

Como pode uma criança resistir à perda do pai na infância, e à presença de uma mãe exigente e distante???.......

Falavas imenso do teu pai e da admiração que tinhas por ele.. Confessavas muitas vezes as incompatibilidades com a tua mãe…. Já eras um solitário há 40 anos…

Depois casaste com uma miúda bem mais nova… Que eu sabia que não tinha nada a ver contigo. Tiveste um filho que adoravas…e que a vida ou a tua ex, afastou de ti… Já eu era professora e ias à escola saber do teu filho, eram os poucos momentos em que te conseguias aproximar dele.

Divorciaste-te e isolaste-te no teu sagrado Monte.

Deixei de conhecer as tuas amizades, nunca nos quiseste misturar; quando se tem muito dinheiro, tem-se muitos amigos… E tu nunca te coibiste de viver na “red line” o tempo todo.

Havia em ti, ndubitavelmente, o fascínio pelo abismo...Como quando mergulhaste de cabeça no açude e foste parar ao hospital em risco de vida ou ficar paraplégico....

Das últimas vezes que te vi, estavas lindo como sempre, mas muito magro, prematuramente envelhecido. Mesmo assim, os teus olhos enormes radiografavam-me e…eu não precisava de contar nada: tu percebias tudo!

Em 2001/2002 tivemos uma passagem de ano juntos… Dançámos… Acho até que nos beijámos!…. Mas eu sabia que o caminho da minha vida não cruzava com o teu e… delicadamente tirei-te as hipotéticas ilusões.



Hoje, a minha melhor amiga de infância telefonou à hora de almoço…Para me dizer que tu tinhas partido.

Saí da escola para ir à tua missa… As flores escolhidas pela tua única família, uma irmã que vivia longe eram malmequeres do campo.

Como disse o Padre, “somos folhas levadas pelo vento….”. E o Espírito Santo sopra por onde quer.

Alguém me disse que sofrias e sofreste muito nos últimos tempos. Mas..nunca te queixavas. Como um príncipe, nunca te permitiste uma queixa!

Penso que terás partido sozinho, provavelmente lá no Monte, no primeiro dia de Primavera… Ninguém me soube bem explicar de quê, nem tive coragem de perguntar à única pessoa da família que vi na Igreja.



Fiquei a pensar que com a quantidade de amigos que perdi nos últimos 10 anos, já dá para fazer uma turma, lá no Céu.



Obrigada Miguel pelos poemas que lemos juntos na nossa adolescência, pelos livros que comentámos, pelas músicas que ouvimos e dançámos.

Obrigada Miguel por teres passado na minha Vida como uma brisa suave e profunda, com cheiro a campo, a Primavera, a malmequeres e a giestas.



Isabel