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sábado, 12 de janeiro de 2013

Requiem pelos Pais


Despedida do pai

"Todos nos enganamos. Sim, todos nos enganamos a nós mesmos, mais do que o mundo ou os outros, como se a fraude só fosse possível com a colaboração de um cúmplice interno. Assim, será importante saber que existem no nosso pensamento conteúdos e mecanismos que podem funcionar de forma contraproducente." _ gostei muito do "cúmplice interno"!!.... Às vezes enganamo-nos porque a "mentira" é simpática para nós.... Outras vezes como meio de defesa…
Há em mim, dolorosamente cravados no coração dois espinhos: os lutos que ainda não consegui fazer pela perda dos meus pais.
Não fiz psicoterapia:  trato-me a mim mesma, escrevendo.
Escrever é como  “ mapear as emoções”, ver por onde caminhámos, de onde partimos e como chegámos.
Eu tenho que perceber as coisas! Defeito meu! Enquanto não perceber “as coisas” , o meu Espírito não descansa.
Sou muito matemática, fria, linear.Sinto necessidade de colocar em símbolos o que aperta o coração.
A mãe partiu com cancro de mama em 2008, a 2 de Novembro depois de ter sido operada a um agressivo carcinoma da mãe em 25/11/2007.
Entre a descoberta da doença e a sua partida, decorreu apena um ano. Não me conformei até perceber. Telefonei para o IPO, chateei os médicos que nunca recusaram responder às minhas sms’s e telefonemas.
Após a partida da mãe, o pai de quem já se suspeitava ter problemas da próstata, entregou-se à doença.
Acho que ele nunca se perdoou tê-la perdido… como se o pudesse ter impedido!
Durante 3 anos, manteve-se vivo pelas netas: sei, sinto-o.
Eram a sua alegria de viver e foi o que manteve vivo.
Em Fevereiro de 2012 o pai teve o 2º enfarte.
Como já tinha sofrido um 1º enfarte em 2006, nunca foi operado á próstata porque o coração não estava em condições de suportar uma anestesia geral.
Vamos fazer o mapa: 1- descoberta de níveis de PSA altíssimos; 2- Consulta ao urologista e anestesista para preparar a cirurgia; 3- recusa do anestesista em fazer a operação antes de uma intervenção cardíaca que lhe permitisse a cirurgia; 3- Intervenção cardíaca de modo a recuperar o tecido cardíaco afectado através de stent/ by pass, whatever.
O cateterismo não  resultou.
Fomos confrontados com o dilema: se o pai for operado ao coração de “peito aberto” tem elevadíssimas probabilidades de não sobreviver.
Entre opiniões de médicos, familiares ou não,  foi decidida e terapia hormonal e posta de lado a cirurgia.
Após o 2º enfarte, como disse em Fevereiro de 2012, o pai… Desistiu de viver. Recusou consultas aos urologistas e até ao seu médico.
Só a minha prima médica o conseguia convencer a fazer análises..e nestas.. a PSA continuava a aumentar vertiginosamente de mês para mês.
Quando o pai começou a ter dores ósseas horríveis, eu percebi,  e os médicos desconfiaram que havia metástases ósseas.
O pai recusou fazer a cintigrafia óssea.
Entretanto a depressão avançou e o pai deixou de comer…e o que comia ..vomitava…. Cada vez passava mais horas na cama.
Nós ralhávamos com ele, a minha prima receitou-lhe um anti-depressivo, fisioterapia, etc.
O pai não quis e já não tinha forças para tal esforço.
Em Julho, Agosto começou a vomitar. O meu olho clínico (cá está a tal frieza que me assusta),  fez-me suspeitar de metástases no sistema digestivo.
 A minha irmã, e a minha prima médica diziam que o pai vomitava devido a “quebras de tensão”.
Durante todo este período de tempo, implorou-nos que não o levássemos ao hospital, vontade que respeitámos até a dôr ser insuportável e ssó atenuada com morfina.
Em Agosto foi a um urologista óptimo e famoso que nos disse: “ o vosso pai esta´em estado terminal”. A minha irmã não assimilou. Quis proteger-se. A verdade doía muito.
Lembro-me como se hoje fosse, e quando me deito,  tento não rever o filme da última vez que levámos o pai ao médico.
Ele já escorregava da cadeira de rodas e a minha irmã severamente ralhava-lhe “ pai! Endireite.se! Oh pai por favor! Esteja bem sentado!”
Não comia nada. Demos-lhe café… e ele… vomitou… E eu…só me apetecia pegar-lhe ao colo….. e bater em quem não via a realidade!!!
Depois foram quase 2 meses de sofrimento indescritível, mesmo com pensos de morfina.
A minha irmã disse: “ pai, vamos ter que arranjar alguém para tratar de si porque eu vou ter que voltar a trabalhar e o pai não pode estar só!” _ ele respondeu-lhe: “ Não vai ser preciso!! Isto vai “resolver-se” depressa!”-
Foram lá 2 ou 3 pessoas a casa: ele recusou todas,  excepto uma miúda de 30 anos que tinha um curso de geriatria que lhe conseguiu dar a volta com a sua humildade e paciência,  aturando-lhe as recusas e o mau feitio…
Lembro-me de entrar no quarto do pai e perguntar-lhe se precisava de alguma coisa e ele responder-me: “ não!! Eu só quero uma coisa, morrer!!”
As dores eram tais,  que o pai gemia noites e dias inteiros. Ninguém dormia naquela casa.
As enfermeiras, amigas nossas de infancia,  começavam a ir lá a casa todos os dias. Foi solicitada uma de saúde mental e outra de fisioterapia. Desistiram, era demasiado tarde. Nada podiam fazer.
Nas últimas semanas, por duas vezes pensámos que era “o fim”,  e por duas vezes foi levado ao centro de saúde.
Por duas vezes foi diagnosticado como moribundo e voltava para casa depois de levar soro.
Quando o ouvia gemer e delirar eu ficava em histeria interior e lembro-me de dizer à minha amiga enfermeira: _“ por favor! Dá-lhe mais morfina!! Não o deixes sofrer assim!!” _ ela respondeu: _ “ Isabel, não posso!! Poderia matá-lo!”….. (!!!!!!)
Na antevéspera da sua morte, já entre momentos de consciência e ausência dela, sentei-me na cama de mão dada: o pai com a outra mão, sem já articular palavra, fez-me uma festa no rosto e no ombro….. Foi tão bom…….E eu murmurei-lhe muitas vezes nesse momento “Deus é grande e vai ficar tudo bem!”
No dia seguinte havia uma festa da universidade da minha filha e eu não o vi.
Na manhã seguinte, a minha irmã ligou-me para a escola. Quando me chamaram depois da aula,  para atender o telefone, eu percebi o que era.
Foi na manhã de 2/11 /2012 que ao acordar,  a minha irmã foi ao quarto e percebeu que o pai já tinha partido.
Passavam exactamente 4 anos da partida da mãe.
Foi uma história de amor.
Combinaram encontrar-se.
Na minha imaginação, a mãe, amor da vida do meu pai, veio silenciosamente dar-lhe a mão e elevá-lo ao Céu durante a noite!!…..
Foi um encontro de eternos enamorados.
_ É por estas e por outras que eu acredito que o Amor é muito mais poderoso que a morte! E que o verdadeiro amor, não “é eterno enquanto dura”. É pura e simplesmente, eterno._

Isabel.