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quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Conversas em Évora


Hoje, depois da consulta com o dermatologista no hospital da misericórdia de Évora (que tem acordo com adse, aproveitem enquanto houver), fui com a Filipa estacionar o carro junto à Igreja de São Francisco no intuito de lhe satisfazer o pedido de ir à Capela dos ossos.
Entretanto, tinha combinado com a minha amiga São (e com as suas filhas),  encontrarmo-nos por ali pelas esplanadas…. e o dia estava tão lindo que por ali ficámos, tomámos chá e acabámos por almoçar.
Assim,  as conversas, que são como as cerejas, foram surgindo naturalmente. Como no Alentejo: com calma e como dizia um amigo meu, deixando o Tempo passar por nós_ algo que só os alentejanos sabem.
Falámos do amor na juventude, dos estudos, dos colegas, dos amigos, dos “rapazes giros” etc,  etc…
Às tantas,  diz a Filipa: “ sabem na minha escola, as pessoas juntam-se em grupos e para elas o que é importante é terem uns ténis da “merrell”, umas camisolas de não sei quê e mochilas de não sei que mais!... Os miúdos que não têm essas coisas são postos de lado!! São gozados! E o que mais impressão me faz, é que são os RAPAZES que mais ligam a essas coisas! Há 2 ou ou 3 anos todos tinham  que ter ténis all stars…. Agora são estas marcas XYZ”!!” (!!!!)
Diz a nossa amiga São,  que é de sociologia: “ Pois, isso tem a  ver com a história da pirâmide social e os grupos definem-se assim pelo que têem, pelo que aparentam, pelas lojas onde compram as coisas… Quem não tem nada dentro, quem não se sabe evidenciar pelo que é, evidencia-se pelo que tem ou aparenta!”
Eu fiquei boquiaberta.
Acreditam que esta questão nunca me tinha ocorrrido???
Simplesmente, no meu tempo não havia “marcas”!
Eu disse: “… faz-me impressão! Então as pessoas deviam identificar-se pelo que lêem, pela música que ouvem, pela cultura que têem, pela educação….” _ às tantas olho para os pés dela, e lá estavam os tènis Merrel, presente do pai!..... ( eu nem sabia que esta marca existia).
E perguntei-lhe depois: “ Oh filha, tu e a mana sentem-se discriminadas por esses miúdos???”
Responde-me ela, peremptória. “ oh mãe, tu achas que esse tipo de pessoas interessa a alguém??? Não sabem falar de nada!!! Nem os quero como amigos!!!”
Fiquei a pensar.
Fiquei mesmo a pensar nesta conversa corrida numa esplanada calma debaixo de um Céu azul lindo e solarengo.
Fiquei a pensar: para onde vais Portugal quando as pessoas tão jovens, numa idade da “construção” da personalidade, pensam e vivem desta maneira??
Onde está a generosidade, a compaixão, a cultura, os livros em casa, a educação, a preocupação com “o próximo”???....
No caminho para Coruche, toquei-lhe e disse-lhe: _“ sabes, a tua marca, está aqui, dentro de ti!!! Aquilo que és, o que sabes, o que amas, o sangue que te corre nas veias e a educação que te demos: essa é a TUA Marca!”_
Ela sorriu. E eu percebi que ela sabia.
1º PS_ como monárquica, apraz-me verificar que nunca vi a família real ostentar marcas e pelo que conheço do senhor Don Duarte a única marca que ostenta é “ I AM MADE IN PORTUGAL!”
2º PS_ durante a doença dos meus pais, as minhas filhas foram incansáveis e admiráveis.. Basta dizer que durante o último ano de vida do avô se revezavam para dormir em casa dele para que nunca estivesse sózinho, lhe faziam os recados e   o amaram e respeitaram, até ao último suspiro.
Espero ser merecedora das filhas que tenho.

Isabel.